E foi lá que o conheci. Apesar de ter sido maltratado pelos moradores do condomínio aonde se escondeu depois de atropelado, e nunca ter sido bem vindo em lugar nenhum, Jair era dócil, e tinha uma incrível tolerância à dor, não causando problemas a quem quer que quisesse tratá-lo. Um lorde! Me encantei com ele logo de cara.
Foi um ano de tratamento veterinário, onde finalmente, em sua vida, ele foi bem tratado. Já curado, andando, com pequenas sequelas do atropelamento, castrado, vacinado e vermifugado, ele foi doado. E eu achava que tudo seria melhor à partir daí. Mas, não foi. A pessoa que o adotou, o amava, mas não tinha competência para cuidar dele. Eu fiz o acompanhamento, fazendo visitas periódicas, até que tive que tirá-lo da casa e trazê-lo para meu apartamento, pois ele estava com um quadro de cistite grave, que necessitava tratamento e cuidado. E, por ter forçado minha entrada na casa onde ele estava morando, para resgatá-lo, encontrei uma situação desunamana, na qual, dois anos mais tarde, viria a dar um ponto final também. Não vou entrar em detalhes, pois envolve pessoas, suas vidas, e um processo judicial. Mas, posso dizer que a presença de Jair naquela casa, naquele momento, salvou vidas.
Duas semanas comigo, em condições bem improvisadas. Jair precisava de uma casa, e eu só tinha um apartamento, com um irmão e uma cachorrinha. Nas duas semanas, além de tratamento para a cistite, ele recebeu amor e carinho, de todos. Bife na sexta à noite - nosso churrasco de grelha - dois passeios no dia, brincadeiras e carinhos. Duas semanas de laços estreitados comigo. Um excelente cachorro, apesar das limitações impostas pelo atropelamento. Mas eu não tinha estrutura para ele, então, consegui achar um outro anjo, um lar temporário que acabou virando definitivo, que deu ao Jair a dignidade que muitos falharam em lhe dar até então.
Tentei, com o passar dos anos, achar adoção para ele, embora o quisesse pra mim. Por que eu não me importava dele ser preto, grande, e não conseguir fazer cocô num só lugar - sequela do atropelamento. O olhar meigo, a confiança, o amor, os lambeijos, eram mais que suficientes para surpassar tudo isso. Não consegui achar um adotante que pensasse como eu, e Jair foi criando laços na única casa que teve de fato, no lar temporário que foi virando definitivo… Sempre amado, nunca chamado de 'meu'.
A cistite atacou de novo, e desta vez, não conseguimos socorrê-lo à tempo. Apesar de toda a torcida, e mais um anjo que se apresentou para tentar ajudá-lo, provendo um novo lar temporário, e disposição de ficar indo e vindo em veterinários com ele, dessa vez nosso Jair não resistiu. Meu consolo é que faleceu amado, admirado, querido por alguns poucos e bons anjos que cruzaram seu caminho… Nós, que tivemos a bênção e conhecê-lo ficamos com a saudade, e a tristeza de não ter podido fazer mais por ele. Conosco, desde o resgate, ele viveu bons 5 anos, entre idas e vindas, e eu só queria mesmo ter tido as condições de ser sim a dona dele. Por que foi só isso que faltou pra esse cão, que só levou alegria às pessoas que tiveram o coração de lhe estender a mão.
Estive alguns dias ausente, pois precisava deste tempo para processar comigo mesma a morte de Jair. Mas a vida continua, e as dívidas com quem ajudou muito a cuidar dele também. Gente que fez o que pôde, pelo menor custo possível, mas que precisa de alguma remuneração. Já conseguimos pagar quase tudo com recursos meus e doações de amigos, e pessoas que se solidarizaram. Foram cerca de R$2000,00 em 3 dias. Temos ainda um débito de R$180,00 para acertar amanhã, e continuamos precisando de ajuda. Se, em seu coração, você sentir que pode doar algo, por menor que seja o valor, nos ajudará muito, já que três pessoas se individaram para tentar salvá-lo. Para doações, é só me contatar em nosso Facebook ou Instagram, que eu entro em contato para passar os dados. E, agradeço à todos que ajudarem de qualquer forma, seja doando, divulgando, pedindo em nosso nome, ou torcendo por nós. Agradecemos também, em nome de Jair, a todos que já fizeram algo.
JulyN
09/10/2018

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